Data: 08/06/2010
Por SIDNEI MATOS
Oito policiais militares foram indiciados por homicídio, e outros quatro, por ocultação de cadáver no inquérito da Polícia Civil que apura a morte de sete pessoas em operação policial na noite de 4 de março deste ano, dentro de umacasa na Rua do Bambolê, no bairro de Pero Vaz.Entre os acusados de assassinato estão o sargento Valter Gomes da Fonseca, da 37ª CIPM (Liberdade), que estava à frente da operação.
O inquérito foi enviado ao Ministério Público (MP-BA) e elenca uma série de indícios queapontamparaaculpados militares, entre eles, a perícia realizada na casa. O exame não identificou marcas de tiros de fora para dentro da residência, nem no sentido contrário, enfraquecendo a tese de troca de tiros, alegada pelos PMs.
A legítima defesa é dada pelos acusados como motivação para a morte de quatro das vítimas que foram socorridas no Hospital Ernesto Simões (Pau Miúdo).
Eles negam, no entanto, responsabilidade sobre as outras três pessoas que desapareceram e cujos corpos foram encontrados dias depois.
Os PMs afirmam que essas três pessoas não estavam na casa, mas a perícia identificou sangue tipo O positivo no colchão que estava no último quarto da residência, o mesmo RH sanguíneo de Érica dos Santos Calmon, de 15 anos, cujo corpo foi encontrado cinco dias depois da chacina, na Estrada das Cascalheiras (Camaçari).
Nomes no local, estava o corpo de Luís Alberto Pereira dos Santos, 33.
Ministério Público Apesar das evidências apontadas pela investigação policial, o promotor de justiça Maurício Cerqueira Lima, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais (Gaeco), do Ministério Público , afirmou que mais provas são necessárias para que se formalize a denúncia dos PMs suspeitos junto à Justiça.
Maurício Cerqueira adiantou que vai devolver o inquérito à 2ª CP (Delegacia da Lapinha), onde foram desenvolvidas as investigações, sob a coordenação do delegado Miguel Lapate Cicerelli, paraque sejam realizadas novas averiguações.
O promotor também prefere aguardar laudos das necropsias de mais três corpos, perícias ainda não liberadas pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT).
"Passei o feriado analisando esse material e entendo que existem algumas perícias e comparações balísticas que precisam ser feitas", explicou o promotor. O delegado Cicerelli, por sua vez, lembrou que o inquérito foi concluído no prazo de 30 dias e a demora no indiciamento se deu por conta da lentidão na emissão dos laudos pelo DPT.
"As perícias do DPT são muito bem-feitas, mas infelizmente não chegam na velocidade que a gente precisa", afirmou o delegado.
A ação em Pero Vaz foi empreendida pela 37ª CIPM com o apoio da Ronda Tático Motorizada (Rotamo) - unidade do Batalhão de Choque da PM - sob alegação de que traficantes armados estariam no bairro. Porém moradores e parentes das vítimas denunciaramqueas pessoasmortas foram encurraladas dentro da residência, sendo executadas sem chance de defesa.
Investigações conduzidas pela 2ª CP apuraram que quatro policiais da Rotamo seriam responsáveis pela ocultação dos corpos das vítimas que desapareceram: além de Luiz Alberto e Érica, a amiga dajovem, Alessandra de Jesus Santos, 17, cujo corpo foi encontradonaantiga estradada Usiba, Subúrbio Ferroviário.
De acordo com o delegado Cicerelli, que presidiu o inquérito, os policiais usaram a viatura da Rotamo de número 058 (uma caminhonete tipoFrontier, de cor preta e modelo fechado) para desovar os corpos.OsargentoCarlosJosé Veloso Santos, da Rotamo, estava no comando da ação.
INQUÉRITO LIGA CORPOS DESOVADOS À CHACINA
1 - Sangue tipo O positivo na casa é de Érica dos Santos, 15, uma das três vítimas que desapareceram;
2 - Cortinas de cor vermelho-vinho que envolviam os corpos encontrados em Camaçari e subúrbio ferroviário foram retiradas da casa na Rua do Bambolê;
3 - Viatura padronizada, de número 058, da Rotamo, esteve em Pero Vaz, passando depois pelo subúrbio e Camaçari, próximo aos locais onde corpos foram desovados
4 - Pelo menos três vítimas foram alvejadas por projéteis de pistola ponto 40 (de uso militar) 5A casa foi lavada pelos PMs e nenhum projétil foi localizado no local onde aconteceram as mortes.
(FONTE: INQUÉRITO DA POLÍCIA CIVIL)
AS VÍTIMAS
Gilberto André Matos Conceição, 31 anos; Everaldo Rocha Guimarães, 26; Bruno Rafael Santana dos Santos, 25; Adailton Cruz Santos, 22 (vítimas que foram conduzidas ao Hospital Ernesto Simões, no Pau Miúdo, pelos próprios PMs). Érica dos Santos Calmon, 15; Alessandra de Jesus Santos, 17; Luís Alberto Pereira dos Santos, 33 (vítimas cujos corpos desapareceram)
Fonte: Jornal Atarde